Mãe & Bebê
Emocional e vínculo

Como lidar com a perda de identidade na maternidade?

Sentir a perda de identidade na maternidade é comum e tem explicação. Veja por que acontece e como reencontrar quem você é, sem abrir mão do bebê.

Equipe Mãe & Bebê5 min de leitura
Mãe sorrindo enquanto segura a criança pequena no colo, ao ar livre

Em algum momento depois que o bebê nasce, muita mãe sente que não reconhece mais a própria rotina, nem muito bem a si mesma. A perda de identidade na maternidade é essa sensação de que os interesses, o tempo livre e até o jeito de se vestir mudaram tanto que sobrou pouco da pessoa que você era antes de ser mãe. Não é um sinal de que algo deu errado com você: é uma reorganização real de prioridades, que o corpo e a cabeça fazem quando um bebê passa a ocupar o centro da casa.

A culpa costuma aparecer junto. Você ama o seu filho e, ao mesmo tempo, sente falta de quem era antes dele, e as duas coisas parecem contraditórias demais para admitir em voz alta. Elas não são. Dá para amar a maternidade e ainda lamentar partes da vida anterior que ficaram de lado, pelo menos por um tempo.

Entender por que isso acontece, e o que dá para fazer a respeito, ajuda a atravessar essa fase sem a sensação de estar falhando em algo que todo mundo parece resolver sozinho.

O que é a perda de identidade na maternidade?#

A perda de identidade na maternidade é o nome dado à sensação de que papéis, gostos e rotina antigos foram substituídos quase por completo pelas demandas do bebê, a ponto de você ter dificuldade de responder o que gosta de fazer fora da função de mãe. Isso aparece em graus diferentes: para algumas mães é uma saudade pontual de sair sem pensar em horário de mamada, para outras é uma sensação mais persistente de ter perdido contato com a própria personalidade.

Não existe um prazo certo para essa sensação passar, e ela também não é igual para quem está no primeiro filho e para quem já passou por isso antes. Mãe de primeira viagem costuma estranhar o corpo e a rotina novos ao mesmo tempo; mãe de segundo filho às vezes sente o oposto, a frustração de não ter tempo nem para o que já sabia fazer bem.

Por que isso acontece depois que o bebê nasce?#

Isso acontece porque a rotina com um recém-nascido ocupa o tempo e a energia que antes iam para o trabalho, os amigos, o lazer e o cuidado pessoal, e essa realocação completa costuma levar algumas semanas para se estabilizar. Três fatores se somam nesse período: o corpo ainda se recuperando do parto, as noites cortadas pelo sono do bebê e a queda nas conversas adultas, que ficam restritas a mensagens rápidas entre uma mamada e outra.

Há também um fator mais silencioso: a maternidade vem cercada de expectativa social sobre como uma mãe deve se sentir o tempo todo, grata e realizada, o que torna mais difícil admitir que também existe cansaço e saudade de outra vida. Quanto mais isso fica escondido, mais pesado parece.

Como reencontrar quem você é sem abrir mão da mãe que você se tornou#

Reencontrar a própria identidade não exige abrir mão da maternidade, exige abrir pequenos espaços dentro dela. Alguns passos ajudam a começar:

  1. Separe 15 minutos só seus por dia, mesmo que pareça pouco: um banho sem pressa, uma música, uma leitura curta. É mais fácil manter um hábito pequeno todo dia do que esperar por uma tarde livre que não chega.
  2. Volte a um interesse antigo em versão reduzida. Se você corria, caminhe. Se você lia romance, leia dez páginas antes de dormir. A versão pequena conta.
  3. Fale sobre o que sente com alguém de confiança, sem filtro. Dizer em voz alta "sinto falta de quem eu era" tira peso de uma frase que, guardada, parece maior do que é.
  4. Divida tarefas do bebê com o parceiro ou com quem mora com você. Identidade também se perde quando uma pessoa carrega sozinha o peso mental da casa inteira; dividir as tarefas do bebê devolve tempo de verdade, não só boa vontade.
  5. Busque outras mães para conversar, de preferência fora da família. Uma rede de apoio materna ajuda a lembrar que a sensação de ter perdido pedaços de si não é rara, nem um defeito seu.

Quando a perda de identidade pode ser sinal de outra coisa#

Quando a tristeza vem acompanhada de choro frequente, desânimo que não passa, falta de interesse até pelo bebê ou pensamentos de que nada vai melhorar, pode não ser só a fase de adaptação: pode ser sinal de depressão pós-parto ou de ansiedade, que pedem acompanhamento profissional. A diferença entre saudade de uma vida anterior e um quadro clínico está na intensidade e na duração: a saudade vai e volta, o quadro clínico se instala e não solta.

Procure um médico, psicólogo ou psiquiatra se a tristeza durar mais de duas semanas seguidas, se atrapalhar o cuidado com o bebê ou com você mesma, ou se vierem pensamentos de fazer mal a si ou ao bebê. Não há vergonha nisso, e quanto antes o cuidado começa, mais rápido costuma ser o alívio.

A perda de identidade na maternidade não é definitiva. A pessoa que você era antes não desapareceu, só está dividindo espaço com a mãe que você se tornou, e esse espaço se reorganiza aos poucos. Se o cansaço da maternidade sem culpa também tem pesado na sua rotina, vale a leitura: as duas coisas costumam andar juntas e melhoram pelos mesmos caminhos.

Continue lendo